Ideia principal: Revestidos de Cristo pelo batismo, prosseguimo a nossa caminhada para a vida plena, que virá após a morte, última etapa da nossa finitude. O caminho é Cristo, que “passou pelo mundo fazendo o bem”. Assim vive o discípulo ideal… não se espanta que a vida plenaa e verdadeira brote da Cruz, isto é, da entrega, do serviço, da renúncia a si mesmo, bem ao jeito de Jesus.
LEITURA I – Actos dos Apóstolos 10,34a.37-43
Pedro tomou a palavra e disse: «Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia,
a começar pela Galileia, depois do batismo que João pregou:
Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem […]
Nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez […] Jesus mandou-nos pregar ao povo
e testemunhar que ele foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos.
- Entre os anos 80 e 90, Lucas escreve o 3º Evangelho e também o Livro dos Actos dos Apóstolos. Por essa altura, a Igreja já está organizada e estruturada; mas, em contraponto, pululam os falsos “mestres”. Para que as comunidades cristãs tenham um critério claro que lhes permita distinguir o falso do verdadeiro, Lucas apresenta a Palavra de Jesus transmitida pelos Apóstolos, sobre a qual se edifica a Igreja.
- Lucas põe na boca de Pedro o “kerigma”, isto é, um primeiro anúncio daquilo que se passou: Jesus, o ungido que tem o poder de Deus (v. 38a); passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos (v. 38b); mataram-nO e suspenderam-nO na Cruz (v. 39); porém, ressuscitou (v. 40); O que se passou tem uma dimensão salvífica… quem acredita n’Ele, recebe, pelo seu nome, a remissão dos pecados (v. 43b).
- Os homens mataram Jesus e O sepultaram; Deus levanta e conduz à vida! Pedro indica ainda a missão dos discípulos, testemunhas de todos estes factos (vv. 39.41)): são enviados a anunciar e a testemunhar que Jesus foi constituído Juiz dos vivos e dos mortos (v.42). Ou seja: o juízo sobre a nossa vida não está nas mãos dos homens – que boa nova! – mas nas mãos de Jesus que, como o Pai, quer a nossa salvação.
LEITURA II – Epístola aos Colossenses 3,1-4
Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus.
Quando Cristo, que é a vossa vida, Se manifestar, também vós vos haveis de manifestar com Ele na glória.
- Paulo estava na prisão quando escreveu a Carta aos Colossenses. O seu objetivo era esclarecer os cristãos face às doutrinas sincretistas que prometiam, pela adesão a certas confusões doutrinais, a certas práticas ascéticas e a certos rituais, um superior conhecimento de Deus e dos mistérios cristãos, bem como possibilitar uma vida religiosa mais autêntica. Contra isso, Paulo afirma a absoluta suficiência de Cristo.
- Pelo batismo, o discípulo nasce para uma vida nova que não tem a sua plena realização neste mundo, mas no mundo de Deus. Ou seja, mesmo que encontrem remédio para todas as doenças e parem as guerras, havemos de morrer. O Céu não é nesta vida, por muito gozo que ela nos proporcione. A vida plena, o face a face com Deus, o gozo eterno, virá após ser ultrapassada a última barreira da nossa finitude: a morte.
- Entretanto, nesta condição de peregrinos, os cristãos não vivem alheados das realidades deste mundo. As boas obras, lembra Paulo, são manifestação na vida do cristão do renascimento batismal, da “vida” da graça, toda feita da presença de Deus em sua alma e de visão sobrenatural, que o leva o a santificar os afazeres diários, trabalhando com os pés bem assentes na terra, mas o coração e o olhar fixos no Céu.
EVANGELHO – João 20,1-9
No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro
e viu a pedra retirada do sepulcro. Correu então e foi ter com Simão Pedro
e com o discípulo predilecto de Jesus e disse-lhes:
«Levaram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde O puseram».[…]
Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro.
Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: viu e acreditou.
Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.
- O Homem Novo, plasmado em Jesus Ressuscitado, aprendeu com o Crucificado a lição do amor total, e vive numa radical entrega a Deus e aos irmãos. O Evangelho começa com uma indicação cronológica: «No primeiro dia da semana». De facto, a intenção é teológica: começou um tempo novo – o da nova criação, o da Páscoa definitiva. O tempo antigo dá lugar ao tempo duma comunidade de mulheres e de homens novos!
- Madalena vai ao sepulcro quando o sol ainda não brilhava, ainda estava escuro… ela havia sido testemunha da Cruz, vive ainda na escuridão, na descrença. Vai, para o que faltava dos rituais da morte. Ainda no escuro, falha a visão do inefável; «Levaram o Senhor do sepulcro… (v. 2), é a falsa notícia que leva aos discípulos e os põe em movovimento. Madalena retrata uma comunidade desorientada e insegura.
- Pedro e João retratam o impacto diferente que a morte de Jesus teve entre os discípulos… Pedro representa o discípulo obstinado, que não aceita a humilhação da Cruz como etapa necessária para um tempo novo. João, o «discípulo amado», faz a experiência do amor de Jesus e, por isso, percebe primeiro aquilo que os outros só descobrirão depois: a morte não saiu vencedora, Jesus está vivo! Age como o verdaeiro discípulo.
Rezar a Palavra
Pai, Vos bendigo por vosso Filho Jesus que, na força do Espírito Santo, ressuscitastes na aurora do dia sem ocaso! Peço-Vos ó Pai: abri os olhos do meu coração para, como o discípulo amado, eu veja e acredite. Abri os olhos de todos os batizados à inteligência das Escrituras. Cuidai, ó Pai, das Igrejas fundadas sobre a fé dos Apóstolos: para que testemunhem, por todo o mundo, que Jesus está vivo! Aleluia! Amem.
Cónego Armando Duarte
5 de Abril de 2026